Gestão de estimativas

Realizando estimativas em projetos de plantas industriais mecânicas

As estimativas em engenharia industrial são essenciais para quantificar e registrar os recursos necessários para a implantação de uma planta industrial. Esses recursos incluem peças, materiais, equipamentos, consumíveis, mão de obra e serviços auxiliares que serão empregados ao longo do empreendimento.

O processo de estimativas em projetos de plantas industriais

Projetos de engenharia industrial diferenciam-se de outros tipos de empreendimentos (edificações comerciais e residenciais por exemplo), devido à sua alta complexidade técnica, à integração de múltiplas áreas (mecânica, civil, elétrica, automação…) e ao ambiente operacional em que são desenvolvidos.

Além dos aspectos tecnológicos, esses projetos envolvem grande investimento em equipamentos, sistemas de produção e infraestrutura, exigindo maior precisão no planejamento e coordenação entre equipes. O processo de como as estimativas e os diferentes níveis de definição de engenharia são representados na figura seguinte.

Análise do processo de refinamento da estimativas em engenharia industrial
Análise do processo de refinamento da estimativas em engenharia industrial

A gestão de projetos de engenharia industrial tem início com a identificação da necessidade e a avaliação de viabilidade técnica e econômica, realizadas por meio de estimativas paramétricas e estimativas análogas (estimativas de Classe 4).

Se o projeto se mostra viável, formaliza-se por meio do termo de abertura, que define escopo preliminar, prazos e partes interessadas. Em seguida, no planejamento, aprofunda-se o detalhamento do escopo industrial, definem-se a sequência de atividades e o cronograma, além de se efetuar a estimativa de custos e quantidades através de um processo de estimativas bottom-up, que resulta no Levantamento de Quantitativos que é registrado na Planilha de Quantidades (PQ).

Na fase de execução, ocorre a implementação das tarefas buscando cumprir as estimativas do planejamento, mobilizando equipes especializadas e coordenando as disciplinas envolvidas, enquanto a gestão de suprimentos garante materiais e equipamentos no momento certo. A Planilha de Quantidades (PQ), estimativa de Classe 1, embasada na estimativa bottom-up, será essencial para direcionar recursos e custos durante toda a fase de execução.

O monitoramento e controle, que acontece em paralelo, permite acompanhar e realizar o refinamento das estimativas (que acompanha projeto conceitual, básico e detalhado), além de lidar com mudanças e riscos, fator crítico para evitar atrasos e prejuízos em projetos industriais de alta complexidade.

Por fim, o encerramento abrange a entrega final, atribuindo um valor exato para o que foi estimado, criando o Livro de dados do Projeto (Data-book) com o arquivo de documentações e lições aprendidas, facilitando futuros Levantamentos de Quantitativos de projetos análogos.

A transição para a operação inclui testes de produção, ajustes de processos e definição de rotinas de manutenção. Em projetos de implantação de plantas industriais, essa etapa é comumente identificada como Start-up ou Comissionamento.

A metodologia FEL e o processo de estimativas

É comum que projetos de plantas industriais sejam realizadas usando a metologia FEL. A metodologia FEL (Front-End Loading), também conhecida como Front-End Planning, é uma abordagem sistemática utilizada em projetos de grande porte (especialmente em setores como óleo e gás, petroquímica, mineração e indústria de processos) para melhorar a definição do escopo e reduzir riscos desde as fases iniciais.

Essa metodologia se desenvolve em etapas (FEL-1, FEL-2 e FEL-3), nas quais são gradualmente aprofundados o detalhamento técnico, as estimativas de custos e prazos, além de analisados os riscos e as estratégias de execução. A figura seguinte ilustra essa metodologia.

Ilustração da metodologia FEL (comumente usada para implantação de plantas industriais).
Ilustração da metodologia FEL (comumente usada para implantação de plantas industriais).

A PQ (Planilha de Quantitativos) surge após o portão 3 (Gate 3). Que é o Gate imediatamente antes da execução do projeto. Cada portão ocorre após a entrega de um projeto (conceitual, básico e detalhado).

Um dos objetivos da metodologia FEL é proporcionar que as decisões sejam embasadas antes de grandes investimentos, garantindo maior precisão no planejamento e maior probabilidade de sucesso do projeto.

Independente de ser usada a metodologia FEL ou não, o processo de estimativas na engenharia industrial que estudamos anteriormente continua o mesmo.

Exemplo prático: estimativas para viabilidade de uma usina de incineração

No contexto de projetos industriais, a construção de uma planta metalmecânica ou de uma usina industrial apresenta desafios e peculiaridades diferentes daqueles encontrados em projetos de construção civil ou de tecnologia da informação (TI).

Ao contrário dos parâmetros empregados em edificações civis, como o CUB (Custo Unitário Básico), que se baseia principalmente em área construída, e de técnicas de projetos de TI (como a técnica de histórias de usuários), em projetos industriais, fatores como capacidade de processamento, tipo de tecnologia empregada e nível de automação tendem a ter maior relevância na hora de levantar as quantidades e os custos.

Um exemplo ilustrativo é a construção de uma unidade de incineração de resíduos industriais perigosos. Ao estimar a viabilidade para a EcoVital (a maior usina de incineração de resíduos industriais Classe I da América Latina, com capacidade de processar 132 toneladas/dia), torna-se evidente que o parâmetro de metro quadrado construído passa a ter menor peso na definição das estimativas. Em vez disso, a tonelada processada e a tecnologia de incineração escolhida assumem papel determinante na projeção dos investimentos necessários, do prazo de construção e dos requisitos de mão de obra especializada.

Foto da implantação da usina EcoVital
Foto da implantação da usina EcoVital

Para estimar o prazo de construção ou o investimento total, deve-se analisar o histórico de projetos análogos e correlacionar variáveis técnicas (como a composição e o volume de resíduos, o grau de automação e as exigências ambientais) com o porte da planta desejada.

Dessa forma, constrói-se uma referência mais confiável do que aquela baseada em métricas de edificações civis. Em suma, o parâmetro de toneladas processadas por dia costuma oferecer uma relação mais linear com o custo global e o prazo de execução, possibilitando estimativas mais consistentes para a viabilidade de usinas de incineração e outros empreendimentos industriais de porte similar.

🤔 Pergunta: Quanto custará a implantação da Usina EcoVital (maior usina de Incineração de resíduos industriais perigosos Classe I da América Latina, capacidade de processamento de 132 toneladas dia)?

Para responder essa pergunta, faça:

  • Assistir ao vídeo institucional da EcoVital clicando aqui.
  • Analise a usina pelo mapa clicando aqui.
  • Analisar a tabela a seguir (dados históricos de implantação de usinas).
Nome da usina Tecnologia Capacidade (ton/mês) Área (m²) Custo da implantação
Módulo RN Incineração 2.500 30.000,00 R$         37.500.000,00
HI 30 Incineração 3.000 30.000,00 R$         48.000.000,00
Pirolix Pirólise 45 5.000,00 R$           1.350.000,00
Termolix Pirólise 150 6.000,00 R$           4.350.000,00
EcoVital Incineração 3.960 ? ?

Tomando o parâmetro área construída, considerando as duas usinas de tecnologia de incineração, vemos que embora a área construída seja a mesma, os custos de implantação mudaram. A mudança na capacidade de processamento da usina tem grande impacto no custo de produção dos equipamentos metalmecânicos. É comum a área ocupada por um reator mudar pouco, mudando a capacidade do mesmo, mas o volume tende a mudar um pouco mais (aumento na altura do equipamento), e a massa mais ainda (aumento na espessura dos aços da construção). Dessa forma, a variável que agrega maior valor para essa estimativa é a capacidade de processamento (medida em toneladas por mês).

Tomando o parâmetro área construída, considerando as duas usinas de tecnologia de incineração, vemos que embora a área construída seja a mesma, os custos de implantação mudaram. A mudança na capacidade de processamento da usina tem grande impacto no custo de produção dos equipamentos metalmecânicos. É comum a área ocupada por um reator mudar pouco, mudando a capacidade do mesmo, mas o volume tende a mudar um pouco mais (aumento na altura do equipamento), e a massa mais ainda (aumento na espessura dos aços da construção). Dessa forma, a variável que agrega maior valor para essa estimativa é a capacidade de processamento (medida em toneladas por mês).

Realizando o cálculo do parâmetro de custo por tonelada produtiva implantada.

  • Calculamos o fator de 15000 para a usina Módulo RN.
  • Calculamos o fator de 16000 para a usina HI 30.
  • Tomando a média desses dois fatores temos o fator 15500 para a usina EcoVital, que determina um cálculo estimado de R$61.380.000,00.

A implantação da usina custou R$65.000.000,00 (com uma pequena alteração no escopo do projeto inicial).

Além de fatores de área, é importante considerar tecnologia da planta industrial e capacidade produtiva para produzir bons parâmetros de estimativa para uma planta industrial.

Um outro fator muito interessante usado na construção de plantas industriais, é estimar o custo total da implantação com base na quantidade de toneladas de aço prevista no projeto mecânico. Mais uma vez, nesse tipo de construção a quantidade de toneladas de aço utilizadas tem maior impacto no custo do que a quantidade em área construída da usina. Esse é o método utilizado pela DMA Engenharia de Estruturas Metálicas atualmente.

Conclusão

Em síntese, o processo de estimativas em engenharia industrial exige uma abordagem diferenciada em relação a outros tipos de projetos, pois considera fatores como capacidade de processamento, tecnologia empregada e quantidade de aço utilizada na construção dos equipamentos, em vez de parâmetros tradicionais como metragem quadrada.

A metodologia FEL auxilia na definição gradual do escopo, validando a viabilidade antes de grandes investimentos, enquanto a Planilha de Quantidades (PQ), geralmente elaborada em estágios avançados de planejamento, embasa a tomada de decisões sobre recursos e custos.

Exemplos como o da EcoVital mostram que a linearidade entre capacidade produtiva (toneladas por mês ou dia) e custo é um indicador mais fidedigno do que a área construída, evidenciando que detalhes técnicos e requisitos ambientais impactam fortemente os custos finais.

Dessa forma, o uso de estimativas paramétricas e análogas, combinado com dados históricos e ajustes à realidade específica de cada projeto, proporciona maior precisão e confiabilidade para a implantação bem-sucedida de plantas industriais.


Quiz de Fixação

Teste o seu aprendizado. Escolha uma alternativa para as perguntas a seguir.

1. Na metodologia FEL, imediatamente após qual ocorrência a PQ (Planilha de Quantitativos) é publicada.

Correct! Wrong!

2. Quais são os 3 projetos que fazem parte do processo de refinamento das estimativas.

Correct! Wrong!

3. Em projetos de plantas industriais, qual costuma ser a variável mais importante para ser usada como parâmetro de estimativa de custo.

Correct! Wrong!

4. Qual das estimativas é a mais precisa e que tem como resultado a publicação de uma PQ?

Correct! Wrong!

Anderson Ferreira

Anderson Ferreira é engenheiro mecânico pela PUC Minas, MBA em gestão de projetos pela USP, certificado como PMP pelo Project Management Institute, Mestre em Engenharia pela UFMG e certificado PMO-CP pela PMO Global Alliance. Anderson ama a gestão de projetos e engenharia, e acredita que unindo esses dois conhecimentos podemos construir um Brasil cada vez melhor.